Você já sentiu o desconforto de descobrir que algo em que sempre acreditou estava errado?
Em A República, Platão nos apresentou a alegoria que hoje conhecemos como o Mito da Caverna. Nessa história, prisioneiros viveram toda a vida acorrentados em uma caverna subterrânea. Lá, a única coisa que podiam ver eram as sombras projetadas por objetos iluminados por uma fogueira que ficava atrás de um muro. Mas, uma vez que sequer tinham o vislumbre de que poderia haver algo além das sombras, elas eram tidas como os objetos por si sós, como a verdade.
Em determinado momento, um desses prisioneiros acaba se soltando e, com isso, ao deixar sua posição, consegue ver que havia algo para além daquele muro, notando assim que aquelas sombras eram apenas as projeções dos objetos iluminados pela fogueira. Entretanto, Platão aponta no diálogo que, uma vez que o escravo viveu nas sombras por toda sua vida, a luz da fogueira poderia incomodá-lo a ponto de fazer com que ele cogitasse voltar para o fundo da caverna.
Platão imagina o que aconteceria se este homem fosse obrigado a deixar o subterrâneo e acabasse chegando ao exterior da caverna. Ele aponta que a luz do mundo exterior chegaria a cegá-lo por um momento, mas, com o passar do tempo, ele certamente se adaptaria.
Fora da caverna, esse antigo prisioneiro, agora liberto, acessa um saber que jamais poderá deixar de ter: esse novo conhecimento traz novo entendimento do que é a realidade. E apesar do primeiro incômodo, essa nova vida iluminada permitirá ao homem acessar a verdade, compreender e refletir verdadeiramente sobre o mundo.
Com este post, queremos apresentar a ciência como o resultado da inquietação, que pode nos obrigar a seguir no sentido da saída da caverna, como um processo incessante de busca da verdade. Mas que, ao mesmo tempo, pode nos trazer uma luz incômoda, revelações que balançam as nossas antigas certezas, que podem, inclusive, nos fazer pensar na possibilidade de retornar para a escuridão. Porém, uma vez acessado o exterior da caverna, não será possível “desver” o Sol; não será mais possível ver a prisão nas sombras como o único e verdadeiro caminho.
📝 Texto de: 👨🎓 Jhosef Abrantes de Quadros (UFABC), 👩🔬 Maria Beatriz Fagundes (Cientista).
[1] PLATÃO. A República. 1. ed. São Paulo: Lafonte, 2017.
